Segundo o testemunho[1] de Augusto Pinto Aparício, de 88 anos, que tem bem viva na memória a recordação da queda do avião nos penedos da serra: “Os corpos dos aviadores vieram logo para baixo e ficaram na Capela de Santo António durante uma noite e ao outro dia foi o funeral”, e lembra-se de que: “veio cá um padre da religião deles e a banda também foi. Deram dois contos de reis para a banda lá ir e eu nessa altura tocava lá e também fui”. Refere ainda que: “O cortejo fúnebre dos aviadores nem foi pelas ruas habituais, porque o padre nessa altura quis dar uma pujança ao funeral e foi feita uma distância enorme para ir até ao cemitério. Foi para mostrar que apesar de não sermos da mesma religião também tínhamos sentimentos por eles”. Termina dizendo: ” o padre deles lá os enterrou, esteve a responsá-los, mas a gente não entendia nada e apesar da situação ainda nos rimos um bocado”.
Outro testemunho, foi o de José Pina Gonçalves, de 71 anos, e conta: “tinha oito anos e quando ia de manhã para a escola ouvi dizer que tinha caído um avião na serra, mas como era muito novo não me deixaram ir vê-lo”. Adianta que: “os corpos foram transportados em cobertores para a capela e eu e os meus colegas fomos lá vê-los”.
Para terminar, refere: “apesar de na altura ainda não ter muita noção dos acontecimentos, mais tarde foi recolhendo elementos sobre o maior acidente ocorrido na freguesia no século passado. Descobriu que na altura a Câmara Municipal de Seia “não queria que o funeral deles fosse em Loriga, mas o padre e o presidente da Junta da época impuseram-se e disse que Loriga tinha condições para fazer um funeral condigno “.
Em 19/11/2019, contou-nos o José Moura Pina, que Manuel Carvalho, genro de António Cabral Leitão, casado com a sua filha mais velha de nome Isabel, emigrados no Congo belga, mas em Loriga nessa data, ajudou a interpretar uns documentos que tinham escapado da explosão do avião. Sobre a sucata do avião, disse ter vindo para a Junta da Freguesia, colocada no “Terreiro da Lição” e vendida ao senhor Valério Fernandes Cardoso.
Também nesta data, em conversa com o Mário Alves dos Santos, nos disse que o seu pai, José Santos Furtado, dizia repetidamente, que tinha também ido ao local onde caiu o avião e, no meio de muita confusão, pegou em dois sapatos e trouxe-os consigo. Quando chegou a casa e vai para os calçar, verifica que eram do mesmo pé!…
No dia 21/11/2019, ouvimos através do telefone de António José Cabral Leitão, o senhor Mário Lemos Conde que, além de corroborar a veracidade da intervenção de Manuel Carvalho em ajudar na decifração de algumas mensagens, que a sua mãe Maria do Carmo, nesse dia e hora em que caiu o avião, estava a passar roupa no último piso da casa de António Cabral Leitão e, quando viu um clarão na serra, pensou logo no “filão rico” de volfrâmio – próximo da Garganta. Saiu a correr e foi para junto dos filhos, tentando acalmar a agonia que ia dentro de si, porque pensava que aquele clarão… tinha sido na mina onde se encontrava seu marido. Só no dia seguinte, teve conhecimento que tinha sido um avião que tinha caído próximo da mina!
Em 23/11/2019 tivemos o depoimento de Aurora Ramos, via Messenger, que nos contou as memórias de seu pai, Carlos Pereira Ramos, um loriguense que trazia no coração a sua terra natal e vivia com muita intensidade o dia da queda do avião.
Carlos Pereira Ramos casou com Maria do Carmo Alves Garcia em agosto de 1944 e partiu para o Brasil com a sua família em 9 de abril de 1951. Ao deixar-nos uma transcrição da realidade tal e qual como tudo aconteceu, é para nós, o repórter mais fidedigno da tragédia porque registou com fotografias o local do acontecimento.
Aurora Ramos, começou por nos contar a memória que seu pai, lhes relatava com emoção e tristeza. Creio ser muito sucintamente, uma memória episódica, nostálgica e revivalista da sua ligação a Loriga e ao acontecimento. Dizia ele: “Estávamos todos dormindo quando acordámos com um grande estrondo! Ficámos muito assustados sem saber o que era, porque estava muito escuro, mas mal começou a amanhecer, fomos ver o que tinha sido aquilo que tanto medo nos deu. Como estava muito escuro e frio, não saíram de suas casas, pois não sabiam exatamente o que era. Ainda não havia amanhecido totalmente, saíram para saber o que tinha sido aquele estrondo e, logo depararam ao olhar para todos os lugares na serra, na zona da Penha do Gato, com um avião totalmente destroçado”.
Conta-nos que o seu pai, sempre “colado” ao senhor Cabral Leitão, o viu avisar o Presidente da Câmara de Seia do ocorrido. Sem demoras, correu imediatamente para Loriga e, junto com o Cabral Leitão, foram para os Correios para telefonarem para Lisboa.
Ligaram para o Ministério da Guerra, e o Presidente da Câmara, dizia ao telefone: “Temos um avião caído de madrugada aqui em Seia”. Aí, o senhor Cabral Leitão disse: “Oh homem, fale direito! Não caiu em Seia e sim em Loriga”, ao que o Presidente da Câmara de Seia teve de corrigir.
Depois disso, Aurora Ramos, diz-nos que seu pai, Carlos Pereira Ramos, que o senhor Cabral Leitão forneceu sacos, agulhas e barbante[2] para transportar os corpos, que ainda não sabiam o estado deles… alguns em péssimo estado. Recolheram aos poucos e seu pai – aqui quase chorando – foram colocando delicadamente nos sacos, transportando de seguida tudo para a Vila. No meio desta azáfama, pegou sua máquina fotográfica e fez fotos junto com os amigos.
Disse-nos ainda que no funeral, esteve uma representante da África do Sul, e que orgulhosamente seu pai dizia que a auxiliou a andar para o cemitério de braço dado, porque ela estava de saltos.
Por último, ele contava que houve uma consternação geral em Loriga com o facto…
Para concluir, deu-nos uma novidade: “que em fevereiro do próximo ano trazia consigo a máquina e os artefactos para fazerem parte do acervo da Junta de Freguesia de Loriga”, o que agradecemos!
Em 24/11/2019 ouvimos o António Matias Ribeiro que nos contou que seu padrinho, José Pires Figueiredo, mais conhecido por José da abelha, serralheiro na oficina Pedro Vaz Leal e possuidor de uma pequena oficina com uma pequena forja num anexo da sua casa, tinha trazido dos destroços do avião muitas peças e parafusos que guardou lá “religiosamente”!
Quando em 1951 José Pires Figueiredo emigrou para o Brasil, logo transmitiu ao seu tio Álvaro Jorge Ribeiro, que toda a ferramenta existente na sua oficina ficaria para o seu afilhado António Matias Ribeiro nosso entrevistado. Dessa ferramenta, das peças e parafusos do avião existentes na pequena oficina, disse-nos ter criado durante muitos anos muitas peças.
É muito comum ouvir dizer-se, embora sem provas documentais[3] concludentes, que uma das consequências materiais imediatas deste acidente de aviação – a receita proveniente da venda da “sucata” – ter sido utilizada para empedrar a rua principal da vila, a rua Gago Coutinho e Sacadura Cabral (antigas ruas Direita e da Praça, alteradas no ano de 1922) desde o Santo Cristo à Estação dos CTT.
Entretanto, a nossa investigação disponibilizou-nos documentos, de que no dia 2/10/1949 a Junta de Freguesia de Loriga mandou fazer um orçamento de colocação dos esgotos e substituição da calçada, entre a Carvalha e a Igreja Matriz, numa distância de 1.100 metros, e o seu custo era de 60.000$00, na condição de a Junta pagar 15.000$00[4] e o restante ser pedido à Câmara Municipal de Seia. Todavia, só em 28/03/1950, foi aprovada a proposta do calcetamento da rua Gago Coutinho e Sacadura Cabral, a Joaquim de Sousa Couto de Nespereira: paralelo de 1.ª 56$50 m2 à faixa de rodado e 55$00 m2 de valeta cubos de 1.ª, sendo pedido à Câmara Municipal de Seia um subsídio para esta obra. A tampa de saneamento do lado esquerdo, ainda hoje existente, é uma prova irrefutável.