Na vila de Loriga… em plena Serra da Estrela, em tempo de exploração de volfrâmio, no ocaso da II Guerra Mundial e num Portugal “neutral…” caiu um avião!
Foi na madrugada do dia 22-02-1944 entre a 1H e as 2H em pleno Entrudo, quando alguns Loriguenses se preparavam para seguir serra acima, uns a caminho das minas e filões do minério, outros para fazer carvão e ouvem um ruído muito estranho… um roncar mesmo, voando mais baixo do que era costume. Alguém, com uma voz de espanto e admiração disse: “vai em dificuldades”!
Minutos depois… o embate na Penha do Gato foi inevitável!
Tudo aconteceu num ápice e, sem que a mão humana pudesse fazer o que quer que fosse para evitar tão desagradável e horrendo desfecho, esse avião despenhou-se… provocando um enorme clarão e uma explosão, que projetou a tripulação e sinalizou o local exato onde tudo aconteceu – Barroca do Marte Amieiro – junto à Fraga Alcabreiro, próximo da Fonte dos Carreiros.
Desconhecem-se na totalidade as razões da sua queda!
Porém, sabemos que o dia se tinha apresentado com céu azul – um dia primaveril – mas à medida que o dia chegava ao fim, a zona da Garganta e das Penhas de Loriga, iam-se cobrindo de nevoeiro dificultando a sua visibilidade.
A tragédia provocou em muitos loriguenses um frenesim compulsivo! Naqueles que ficaram em casa… nos que trabalhavam nas fábricas… nos que se preparavam para subir a serra para explorar o minério e… nos que iam fazer carvão. Nos dois últimos, a curiosidade e a ajuda, impeli-os a dirigirem-se para o local onde tudo tinha acontecido.
Mais afoito e corajoso, chega ao local o primeiro deles – o senhor Álvaro Abrantes Pina – que se depara com um espetáculo medonho… ficando horrorizado! Um avião completamente desfeito e muitos destroços.
Decidido… percorre toda a área envolvente do sinistro na procura incessante de alguém vivo, mas só vê sucata e ferros! Chama… chama e ninguém responde! Repentinamente, vê seis vítimas… já em sono profundo!
Seguiram-no outros, que viram também munições em grande quantidade “que parecia milho”… metralhadoras… “very lights” (lançador de foguetes luminosos) … dois motores do avião… muita chapa e também as vítimas mortais!
Após o acidente… foi necessário proceder ao transporte dos mortos e à limpeza da sucata!
Os mortos, depois de alertadas as autoridades concelhias, foram cobertos com cobertores, colocados em sacos e levados em padiolas nesse mesmo dia para a Capela de Sto. António na vila de Loriga…
Quanto à sucata, o senhor Emídio Moura Pina auxiliado por um outro, teve a responsabilidade de desmanchar o avião peça a peça!… Durante quinze dias, o tempo que durou o desmantelamento e o transporte serra abaixo até à vila, num percurso que durava duas horas, a azáfama foi muita.
Da tragédia, o que se sabe é que tinham estado a jantar na noite anterior num restaurante em Gibraltar – foi encontrada uma fatura no meio dos destroços – e iam para o Reino Unido “passar” o Carnaval…
Os corpos dos seis malogrados militares, cumpridas as formalidades, seriam enterrados no Cemitério local onde ainda se encontram, num espaço cedido para o efeito pela Junta de Freguesia de Loriga. O funeral – o maior de sempre – seguiu da Carreira junto à capela de Sto. António para apanhar a EN 231, seguindo até à Senhora da Guia Nova, para depois descer na direção do Cemitério, sempre acompanhados pela Banda da Sociedade Recreativa e Musical Loriguense ao toque da marcha fúnebre “Última Hora” e uma multidão de gente.